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A DEFESA PODE SER O TRUNFO PARA O HEXA DO BRASIL NA COPA

Quando se analisa a Seleção Brasileira nesta Copa do Mundo, a tendência natural é concentrar a atenção nos jogadores de frente. Vinicius Júnior, o protagonista até aqui com 4 gols marcados, Neymar, o craque adormecido, Rayan, a revelação, e Matheus Cunha, o achado que se multiplica com gols e disciplina tática. A qualidade ofensiva que ainda tem Gabriel Martinelli, Luiz Henrique, Igor Thiago e Endrick monopolizam debates, programas esportivos e as redes sociais. No entanto, talvez a característica mais relevante da equipe de Carlo Ancelotti esteja sendo observada por poucos: a consistência defensiva.

O Brasil chega à fase decisiva do Mundial apresentando indicadores que remetem às suas campanhas mais bem-sucedidas em Copas do Mundo. Desde a entrada de Danilo durante o segundo tempo da partida contra Marrocos, a Seleção não sofreu mais gols. São 225 minutos consecutivos de invencibilidade defensiva, que equivalem a dois tempos inteiros de 90 minutos mais 45 minutos. Ou seja: dois jogos e meio do torneio.

O dado, isoladamente, poderia parecer circunstancial. Mas quando inserido em uma análise mais ampla, ganha significado. O histórico recente do Brasil em Copas mostra que as eliminações não ocorreram somente por incapacidade de marcar gols. Ao contrário. Em praticamente todas as quedas desde 2006, a Seleção produziu ofensivamente. O problema esteve na incapacidade de sustentar vantagens ou resistir aos momentos de pressão dos adversários europeus.

O levantamento é revelador. Em 2006, a equipe de Parreira possuía um dos elencos mais talentosos da história recente, mas foi eliminada pela França ao sofrer o gol de Thierry Henry nas quartas de final. Está certo que não marcou, mas o gol sofrido por escuido da defesa derrubou a seleção.

Em 2010, Robinho abriu o placar contra a Holanda, mas a equipe sofreu a virada na segunda etapa. Em 2014, veio o colapso histórico diante da Alemanha: 7 a 1, quando Felipão um defensor, preferiu jogar o time no ataque. Em 2018, a Bélgica construiu uma vantagem de dois gols que o Brasil não conseguiu reverter completamente apesar do gol de Renato Augusto.

Em 2022, Neymar marcou na prorrogação contra a Croácia e parecia encaminhar a classificação, mas a Seleção não soube se proteger e sofreu o empate quando faltavam apenas quatro minutos para o encerramento do tempo extra. Fomos eliminados nos pênaltis.

Há um padrão evidente. Desde a conquista do pentacampeonato em 2002, o Brasil foi eliminado cinco vezes consecutivas por seleções europeias. Em todas elas, o fator decisivo esteve relacionado à vulnerabilidade defensiva em momentos críticos. Por isso, a configuração atual merece atenção.

Pela primeira vez em muitos anos, a impressão transmitida pela equipe não é a de um time que só dependente de seus atacantes para sobreviver. O Brasil parece capaz de controlar partidas sem necessariamente produzir uma avalanche ofensiva. Grande parte dessa transformação passa pela estrutura montada por Ancelotti. A manutenção de Alisson oferece segurança rara no futebol mundial, embora alguns céticos criticam o goleiro. Além das defesas propriamente ditas, o goleiro do Liverpool reduz riscos através da leitura de jogo, do posicionamento e da qualidade na reposição. Fora a liderança que impõe. Não se trata apenas de evitar gols; trata-se de impedir que situações perigosas aconteçam e mentalmente deixar o time mais seguro.

À sua frente atua uma dupla de zaga formada por jogadores habituados ao mais alto nível europeu. Ambos chegaram ao Mundial após disputarem a final da Liga dos Campeões, experiência que representa um padrão de exigência muito próximo daquele encontrado nas fases decisivas de uma Copa do Mundo. Marquinhjsoe Gabriel Magalhães estão entre os melhores zagueiros do mundo.

Mas talvez o ajuste mais importante tenha ocorrido nas laterais. Historicamente, o futebol brasileiro construiu sua identidade através de laterais extremamente ofensivos. De Carlos Alberto Torres a Cafu e Roberto Carlos, a tradição sempre privilegiou profundidade e participação no ataque. Nesta Copa, entretanto, a prioridade é outra. Danilo oferece equilíbrio. Sua entrada no lugar de Ibañez reduziu significativamente os espaços concedidos ao adversário pelo corredor direito. Mais do que vencer duelos individuais, o lateral contribui para a organização coletiva, aproximando setores, protegendo os zagueiros e permitindo que o time mantenha uma estrutura compacta mesmo quando perde a posse da bola.

O mesmo raciocínio vale para o lado esquerdo. O titular da posição Douglas Santos destaca-se mais pela capacidade defensiva do que pela agressividade ofensiva. O resultado é uma linha de quatro jogadores cuja principal característica não é atacar, mas impedir que o adversário ataque.

Essa diferença pode parecer sutil, mas historicamente possui enorme relevância em Copas do Mundo. Ainda mais porque abre caminho para que o time possa ser bem ofensivo atacando até mesmo com 4 jogadores e de várias formas. Com Igor Thiago ou Matheus Cunha, agora consolidado. Com Rayan ou Luiz Henrique e ainda Gabriel Martinelli. Com Endrick e Neymar. Poderá ainda voltar a ter Raphinha mais adiante. Ancelotti falou: "Não quero um padrão de jogo, quero várias formas de jogar".

Fora isso, o meio é o setor que precisa melhorar, embora tenha segurança defensiva com Casemiro e Bruno Guimarães à frente da zaga, mas pode ser mais protegido com Danilo Santos e Fabinho, sem a instabilidade de Lucas Paquetá.

As duas últimas seleções brasileiras campeãs eram equipes extremamente equilibradas. Em 1994, o Brasil sofreu apenas três gols em sete partidas, média de 0,43 por jogo. A proteção oferecida por Dunga e Mauro Silva permitia que a defesa formada por Jorginho, Aldair, Márcio Santos e Branco raramente fosse exposta.

Em 2002, o time de Felipão sofreu quatro gols em sete jogos, média de 0,57. Embora o destaque daquela equipe tenha ficado para o trio Ronaldo, Rivaldo e Ronaldinho, a estrutura defensiva tinha três zagueiros: Lúcio, Edmílson e Roque Júnior que abriam caminho para soltar os laterais Cafu e Roberto Carlos. Curiosamente, a melhor média defensiva brasileira desde 1994 não pertence a uma seleção campeã. Em 2006, o Brasil sofreu apenas dois gols em cinco partidas, média de 0,40 por jogo. Ainda assim, caiu diante da França. É que na hora decisiva você não pode sofrer gols.

Nesse aspecto, a Seleção de 2026 apresenta sinais encorajadores, mas ainda existe a ressalva relacionada ao nível dos adversários enfrentados. Marrocos foi o único teste realmente desconfortável até o momento. As fases eliminatórias costumam impor desafios completamente diferentes, sobretudo diante das potências europeias que eliminaram o Brasil em todas as Copas desde 2006. O cenário indica que a equipe possui uma maturidade defensiva que não era observada há bastante tempo.

O Brasil continua tendo talento suficiente para decidir partidas através de jogadores como Vinicius Júnior. Mas talvez a diferença desta geração esteja justamente no fato de não depender exclusivamente deles. Durante anos, a Seleção procurou vencer porque atacava melhor que os adversários. Nesta Copa, existe a impressão crescente de que poderá vencer porque concede menos oportunidades que eles. É só o começo, mas é pelo menos um indício de que o olhar de todos pode mirar não só nos gols macados pelo Brasil, mas nos gols que não sofreu.


 
 
 

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