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O Algoritmo da Derrota

Existe um livro chamado O Algoritmo da Vitória, de José Salibi Neto e Adriana Salles Gomes, que procura descobrir quais padrões unem os maiores vencedores do esporte. Podemos concluir, com base nas histórias de atletas e equipes multicampeãs, que não existe uma fórmula mágica. Há alguns princípios que aumentam as chances de sucesso: liderança, cultura, preparação, adaptação e execução. Mas, no futebol brasileiro, parece que criamos o nosso próprio algoritmo que produz derrotas,principalmente do ponto de vista cultural.

Durante décadas, o Brasil foi reconhecido por exportar um futebol que o resto do mundo tentava copiar. O futebol arte. Hoje, a sensação é o contrário. Entregamos nossa essência para tentar reproduzir uma versão burocrática do futebol europeu que nem eles acreditam mais. Deixamos de ser referência para nos tornar uma espécie de xerox, uma cópia mal feita.

Os resultados ajudam a explicar essa percepção. Em 2014, sofremos a maior derrota da nossa história: o 7 a 1 para a Alemanha, em pleno Mineirão. Depois vieram eliminações para seleções europeias que, embora fortes, encontraram jogadores mais decisivos do que os nossos. Em 2018, Kevin De Bruyne brilhou pela Bélgica. Em 2022, Luka Modrić comandou a Croácia, amparado pelas defesas decisivas de Dominik Livaković. Agora, em 2026, Haaland decidiu para a Noruega enquanto Nyland cresceu justamente quando mais importava. Mas são todas seleções emergentes ou circustanciais. Foi a pior campanha do Brasil desde 1990. Ou seja: retrocedemos ao ponto antes do Tetra.

Em todas essas Copas recentes, o protagonista da partida decisiva vestiu a camisa do adversário. Também deixamos de formar jogadores em posições que fizeram parte da identidade do futebol brasileiro. Do goleiro ao centrovante, muitos brilham nos clubes mas não são nem sombra na Seleção. Durante décadas, nossos laterais atacavam como meias. Cruzavam, driblavam, finalizavam de média distância e decidiam partidas. Hoje, muitos cumprem quase exclusivamente funções defensivas e mal. Em vez de ampliar o repertório ofensivo, tornaram-se uma extensão dos zagueiros que também não ajudam.

Seguimos produzindo atacantes em abundância. Não tão fenomenais e mágicos, é verdade. Mas ainda assim com a qualidade do tamanho da camisa que vestem ou da competição que disputam principalmente na Europa. Vinícius Júnior, Raphinha, Endrick, Rayan e tantos outros comprovam que talento nunca deixou de existir. O que parece diferente é o comportamento desses jogadores quando vestem a camisa da Seleção. Houve uma espécie de lavagem cerebral de que jogar bonito, driblar, tentar decidir no talento é um pecado. O futebol é coletivo, mas não dá para robotizar o processo. É a industria da mediocridade.

A irreverência que aparece nos dribles pelos clubes, nos vídeos das redes sociais e na personalidade exibida fora de campo que desaparece na Seleção. Entre likes e viralizações, existe uma aprovação de seguidores em resenhas do tipo: "é nóis, papai" que contaminam até mesmo os debates esportivos e novo shownalismo e não o jornalismo esportivo. São os mesmos a cancelar no primeiro tropeço, sem argumentos coerentes. É um mundo virtual contaminado por um vírus que ganha curtidas ou gera comentários odiosos, mas produz um engajamento fora do foco da cultura e do profissionalismo do futebol brasileiro. Os grandes jogadores brasileiros tinham alegria nos pés de uma forma instintiva e até irresponsável. Garrincha, Ronaldinho Gaúcho, Ronaldo, Romário. todos transmitiam a sensação de que o improviso fazia parte do espetáculo. Hoje, muitas vezes, parece haver mais preocupação em não errar do que vontade de decidir. Mesmo que o futebol tenha evoluído e existes maneiras de coletivamente frear o talento, na hora da verdade o que decide é qualidade individual. Ou não estamos enaltecendo Messi, Mbappé e Haaland? O que é compreensível é quando se protege num sistema tático uma fragilidade e se concentra uma jogada onde está sua força, seu diferencial. Neste caso, o mister é um maestro que precisa saber afinar o time para que "jogue por música". Mas no caso do Brasil, não há música sem uma orquestra afinada. É como se houvesse uma partitura perfeita, mas os músicos que dão a base, o ritmo, estão totalmente fora do tom. Não basta tática se o meio-campo não funciona. O Brasil deixou de produzir com frequência o camisa 10 clássico, o organizador que controla o ritmo do jogo, ou mesmo o camisa 8 capaz de construir e chegar à área. Sem falar no 5, o guardião da defesa com excelente saída de bola. Talvez por isso Neymar tenha permanecido, durante mais de uma década, praticamente sem sucessores naturais na função de principal articulador da Seleção. Seu talento era raro, dentro e fora do algoritmo. Mas ficou apenas num dó, ré, mi, fá.

O encanto surge quando menos se espera. Foi por isso que tanta gente simpatizou com Cabo Verde nesta Copa. A seleção africana jogou sem medo. Atacou favoritos, assumiu riscos e mostrou um futebol aberto, corajoso e criativo. Independentemente do resultado, transmitiu exatamente aquilo que durante décadas identificava o futebol brasileiro: ousadia. O talento, em alguns momentos, desafia qualquer previsão estatística. É uma dança que balança o coração de quem ama futebol. Isso não significa desprezar os dados. Eles são fundamentais. Uma espécie de marcapasso desta arritimia frenética da bola em campo, cheia de combinações que a ciência insiste em decifrar. Carlo Ancelotti mostrou diversas vezes ao longo da carreira como uma estratégia de jogo faz diferença. Mas também demonstrou que estatística não decide tudo. Nas oitavas de final da Champions League de 2025, contra o Atlético de Madrid, Ancelotti revelou que pretendia colocar Endrick como quinto cobrador de pênalti. Mudou de ideia ao olhar para o atacante.

"Tínhamos dúvidas sobre o quinto cobrador. Aí vi a cara do Endrick e pensamos: melhor colocar o Rüdiger." O zagueiro cobrou. Fez o gol. O Real Madrid se classificou. Curiosamente, Vini JR havia errado uma cobrança de pênalti no tempo normal e foi substituído.

Naquele momento, Ancelotti deixou claro que, além dos números, existe algo que algoritmo nenhum consegue medir completamente: confiança, personalidade e estado emocional.

Por isso causa estranheza que, na decisão contra a Noruega, Vinícius Júnior, justamente o jogador brasileiro mais decisivo da Copa, não tenha assumido a cobrança de pênalti. Ele que já tinha uma experiência ruim e tantas boas, era o mais habilitado pela sua liderança que sumiu naquele momento. Ancelotti explicou que a escolha por Bruno Guimarães seguiu critérios estatísticos. É uma decisão compreensível sob a lógica dos dados, mas difícil de aceitar quando o protagonista do time estava em campo.

Os algoritmos ajudam, mas não podem ser definitivos em decisões que envolvem o comportamento emocional. É verdade que o Brasil disputou esta Copa desfalcado de jogadores importantes como Militão, Wesley, Rodrygo, Estêvão, Paquetá e Raphinha. Também é verdade que a maior responsabilidade pela eliminação pertence aos jogadores, que desperdiçaram oportunidades claras durante a partida contra a Noruega. Mas toda derrota deixa uma escolha.

Persistir no caminho pragmático ou recuperar a identidade menos lógica do nosso futebol.

Espero que a arte volte a ocupar o lugar que sempre foi seu. Porque, quando o Brasil joga como o Brasil, até a derrota dói menos. Afinal, ela acontece tentando criar uma obra-prima e não uma cópia. Que o pênalti convertido por Neymar tenha representado não apenas o fim de um ciclo, mas também o encerramento do algoritmo da derrota.

 
 
 

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