O ciclo da Copa de 2030 começa agora

O Brasil estará no horário do café da manhã, nesta sexta-feira, às 7h, quando serão 20h em Townsville, cidade costeira do nordeste australiano, onde começa o novo ciclo da Seleção Brasileira de Carlo Ancelotti, em amistoso contra a Austrália, no estádio Queensland Country Bank. Enquanto isso, o centro do mundo do futebol, a Europa, terá despertado com diversas novidades no comando técnico de grandes seleções históricas, que nesta época disputam a Liga das Nações. Já o nosso vizinho mais forte, a Argentina, terá uma virada de chave mais tarde, enquanto prepara a janela de outubro para se despedir de Lionel Messi, no dia 6, contra Benin, no Monumental de Núñez. O último tango de La Pulga será, sem dúvida, o grande acontecimento do futebol mundial neste período.
Depois de Townsville, o Brasil ainda joga de novo às 7h (horário de Brasília) contra a Austrália, em Brisbane, no dia 29, e encara a Índia, num confronto inédito, em Calcutá, às 11h (horário de Brasília). Será um confronto especial porque os indianos têm um apreço especial pela Seleção Brasileira, algo que se viu quando o Brasil foi ao Haiti no Jogo da Paz. Podemos dizer que, desta vez, será um jogo abençoado por Madre Teresa de Calcutá, que virou santa em 2016, canonizada pelo Papa argentino Francisco graças a um milagre que salvou a vida de um brasileiro em Santos, onde a esposa, Fernanda, colocou um pedaço de tecido da santa na cabeça de Marcílio que, de condenado à morte, se curou sem qualquer explicação científica. Madre Teresa visitou o Brasil em três oportunidades. Em 1979, logo após receber o Nobel da Paz, teve um encontro histórico em Salvador: um abraço abençoado em Irmã Dulce, que hoje também é santa.
A fé sempre esteve ao lado do futebol brasileiro e será importante para que possamos acreditar que este novo ciclo poderá ser vitorioso e acabar com um jejum que será de 28 anos sem um título mundial. Mas não basta ter fé que costuma ajudar os melhores como se diz. O Brasil precisa voltar a ser forte e competitivo sem perder a sua essência do futebol-arte, criativo e talentoso. Este é o grande dilema de Carlo Ancelotti, um técnico extremamente vitorioso, com um pragmatismo italiano que não combina com o DNA do futebol brasileiro. Na Copa, viu-se um time sem alma, ainda vivendo à sombra de Neymar, que foi goela abaixo, como se pudesse ser um novo milagre de Santos para o mundo. Foi uma espécie de Conto do Vigário em que caímos eu e muitos de nós quando o homem do gelo, Haaland, nos mandou mais cedo para casa.
Ancelotti pode agora buscar o equilíbrio sem abrir mão de suas convicções, mas também permitir que a alegria do futebol brasileiro, do drible, das grandes jogadas individuais, floresça. É verdade que não teve Estêvão na Copa e depois perdeu Raphinha, concentrando tudo em Vini Jr., que não tem perfil para carregar a seleção nas costas. Mas a mudança que mais chama a atenção será no gol nestes amistosos. Alisson, do Liverpool, não foi descartado pelo técnico, porém não foi convocado, para dar lugar a novos nomes, como o goleiro do Corinthians Hugo Souza, já chamado anteriormente, Pedro Morisco, do Coritiba, e Otávio, do Cruzeiro. Ederson, ex-City e hoje no Fenerbahçe, também não foi lembrado desta vez. Weverton, mesmo sendo um milagreiro pelo Grêmio, não deve estar no radar para 2030, quando terá 42 anos.
Da defesa ao ataque, há mudanças significativas e outros finais de ciclo: Danilo e Alex Sandro na defesa, Casemiro no meio, além de Neymar no ataque. O time titular foi anunciado por Ancelotti com Vini Jr., Endrick, Estêvão e Raphinha. É mais importante, nestes jogos contra adversários mais fracos, que o time seja mais ofensivo e ousado, mesmo que fique mais vulnerável na defesa, onde terá Hugo Souza, Matheusinho, Marquinhos, Victor Reis e Douglas Santos. Matheusinho, o lateral do Corinthians, é uma boa novidade porque parte para cima, é ofensivo e pode crescer neste ciclo; aos 26 anos, é experiente, com boa passagem pelo Flamengo. Victor Reis é jovem e, aos 20 anos, voltou do Girona, da Espanha, onde era titular, para ter novas oportunidades no Manchester City do técnico Enzo Maresca. Joga porque o titular Gabriel Magalhães, do Arsenal, sentiu um desconforto. À frente da zaga, estão os dois pilares, volantes que saem para o jogo: Bruno Guimarães, agora no Arsenal, e Danilo Santos, o melhor jogador do Botafogo.
A Austrália será o adversário mais difícil desta série de amistosos, mas ainda assim muito frágil. O técnico australiano, descendente de croatas, Tony Popovic, de 53 anos, é um ex-ídolo local como zagueiro. Mantido no cargo após boa campanha na Copa, eliminando a Turquia com uma vitória por 2 a 0, costuma jogar bem fechado, com transição rápida para contra-ataques. O principal atacante é Nestory Irankunda, que recentemente foi comprado pelo Sporting, de Portugal, vindo do Watford. É o cara da velocidade, típico jogador que procura as brechas às costas dos laterais ou quando os volantes não dão cobertura. Assim como Alisson não foi convocado, o experiente goleiro Mathew Ryan, de 34 anos, que está no Levante, da Espanha, foi poupado para dar lugar aos mais jovens, como Paul Izzo, que joga no Randers, da Superliga Dinamarquesa. Serão ótimos testes porque, se o Brasil se abrir demais, poderá ficar vulnerável na defesa.
Também é importante observar e testar novos jogadores, como os zagueiros Jair (Nottingham Forest) e Arthur Dias (Athletico-PR); o lateral Mauro Júnior (PSV); e os meio-campistas Martinelli (Fluminense), Gabriel Bontempo (Santos) e Breno Bidon (Corinthians). Além deles, nomes mais experientes podem ganhar uma nova chance, como o atacante Samuel Lino, em grande fase pelo Flamengo, e Pedro, também do Flamengo, um centroavante que poderia ter ido para a Copa no lugar de Igor Thiago. Vamos ficar de olho também no lateral-direito Vanderson, ex-Grêmio, que hoje joga na esquerda na Roma, e em Andrey Santos, que trocou o Chelsea pelo Manchester United, que se despediu de Casemiro, hoje no Inter Miami. DESPEDIDA DE MESSI
O Brasil só voltará a jogar em novembro, em dois amistosos em Singapura, contra a própria Singapura e o Japão. A Copa América só será em 2028, no meio do ano, e a Conmebol nem confirmou a sede ainda. Até lá, a Argentina já terá definido o seu futuro. A melhor seleção sul-americana dos últimos tempos se despedirá de Lionel Messi no dia 6 de outubro, no Monumental de Núñez, em Buenos Aires, contra o frágil Benin. Ele foi convocado apenas para este jogo porque a Argentina joga antes com a Bolívia, no dia 30/09, no Mario Kempes, em Córdoba, e ainda terá outro jogo no estádio do River Plate, no dia 03/10, contra Burkina Faso. As últimas informações indicam que o técnico Lionel Scaloni renove o contrato, que acaba no final do ano, até 2028, com cláusula de renovação prevista para 2030.
A continuidade de Scaloni até o próximo Mundial, que será disputado na Espanha, em Portugal e no Marrocos, coloca o técnico, que tem um título e um vice-mundial, num grande desafio. Comandar a seleção argentina sem Messi é quase comandar um time sem alma, embora espírito de equipe e raça sejam justamente o que falta na essência dos nossos hermanos. Se Maradona é um santo, com Messi não será diferente. Por si só, ele tem uma espécie de canonização no mundo do futebol e pelas calles de Buenos Aires.
Além de Messi, Rodrigo de Paul, Otamendi e Lo Celso foram chamados apenas para o amistoso de despedida. Dois machucados foram cortados: o zagueiro Foyth e Thiago Almada, recém-contratado pelo River Plate. A base da seleção ainda tem nomes como o goleiro Emiliano Dibu Martínez, que trocou o Aston Villa pelo Chelsea; Enzo Fernández, que saiu do Chelsea para o Manchester City; Mac Allister, do Liverpool; Julián Álvarez, que permaneceu no Atlético de Madrid após interesse do Barcelona; e Lautaro Martínez, da Inter de Milão. Algumas novidades e promessas começam a surgir, principalmente na defesa, como o goleiro Santiago Beltrán, do River Plate; o lateral Agustín Giay, do Palmeiras; Santiago Simón, meia que joga na lateral, do Toluca; os zagueiros canhotos Valentín Gómez, do Real Betis, e Tomás Palacios, do Estudiantes, que também atua na lateral esquerda; Román Vega, lateral-esquerdo do Zenit; e Leonardo Balerdi, zagueiro da Roma.
Para o meio, Scaloni aposta em Ezequiel Fernández, meia do Bayer Leverkusen, e na volta do meia Franco Mastantuono, na Fiorentina. Mais avançados, há dois garotos de 19 anos: Tobías Andrada, do River Plate, e Leonel Flores, do Boca Juniors, que tem sido um dos destaques, com dribles e grandes jogadas, numa série de 14 jogos de invencibilidade da equipe xeneize. Para o ataque, também há algumas caras novas, como Matías Soulé e Santiago Castro, da Roma, e a volta de Prestianni, do Benfica, que foi prejudicado após a merecida punição que sofreu por tapar a boca e ofender Vini Jr., episódio que gerou a regra do cartão vermelho para casos como esse a partir da Copa do Mundo. Quem não aparece, devido ao papelão na final da Copa, envolvido em brigas e discussões contra a Espanha, é Leandro Paredes, suspenso por 10 jogos pela Fifa, embora esteja liberado para jogar pelo Boca, onde é o protagonista, o centro do time.
KLOPP, ZIDANE, MANCINI, JJ E XAVI Além da Argentina, o Brasil precisa se espelhar nos movimentos do futebol europeu, que, diferentemente de nós, tem a Liga das Nações pela frente. A Espanha, campeã mundial, segue com o técnico De la Fuente e sua base jovem, já como principal candidata ao título em 2030, quando jogará em casa como uma das anfitriãs. Terá Lamine Yamal cada vez mais amadurecido, num Barcelona que também voa nesta temporada como forte candidato ao título da Champions League. Está no mesmo grupo da Liga das Nações que a Inglaterra, que manteve o técnico alemão Thomas Tuchel e convocou alguns excluídos da Copa, como Cole Palmer, do Chelsea, e Alexander-Arnold, do Real Madrid. Os dois se juntam ao espetacular Harry Kane, do Bayern de Munique. A Inglaterra foi eliminada pela Argentina na semifinal da Copa e acabou em 3º lugar, naquele jogo maluco de 6 x 4 contra a França. Segue sendo uma forte concorrente em tudo o que disputa. O Grupo C ainda tem a Chéquia e a Croácia do capitão Modric, de 41 anos.
Alguns técnicos recém-empossados também chamam a atenção. No Grupo A1, Zidane estreia no comando do timaço da França de Mbappé e companhia, após o fim do ciclo de Deschamps, campeão como jogador em 98 e como técnico em 2018. No mesmo grupo está a Itália, após o fracasso de ficar fora de uma Copa pela terceira vez consecutiva, de novo com Roberto Mancini, que chegou a vencer a Eurocopa na primeira passagem, mas viu a equipe ser eliminada pela Macedônia do Norte na semifinal da repescagem para a Copa de 2022; esta, depois, seria eliminada por Portugal. Claudio Ranieri, ex-Roma, é o novo diretor de seleções da Itália. Foi o fim das especulações de que Pirlo substituiria Gennaro Gattuso.
Portugal tem a estreia de Jorge Jesus, ex-técnico do Flamengo, que estava no mercado árabe, no Al-Hilal e no Al-Nassr de Cristiano Ronaldo. Ele substitui o espanhol Roberto Martínez, que não agradou aos portugueses e saiu após a eliminação para a Espanha nas oitavas de final. Jesus chegou daquele jeito autoconfiante, dizendo que sabe cantar o hino português inteiro, numa clara comparação com seu antecessor. Enalteceu Cristiano Ronaldo, que segue na seleção, mas já disse que não estará no Mundial de 2030. A competição tem um certo peso para JJ porque Portugal é o maior campeão da Liga das Nações, com dois títulos, e o último foi com Martínez: vitória nos pênaltis sobre a Espanha. No Grupo A4, encara o País de Gales, a Dinamarca e a Noruega de Haaland e Ødegaard, com o técnico Solbakken mantido no cargo.
No Grupo A2, a Alemanha estreia como técnico o grande Jürgen Klopp, de tamanho sucesso no Borussia Dortmund e, principalmente, no Liverpool. Ele substitui Julian Nagelsmann, que fracassou com a Alemanha em mais uma Copa sem brilho desde 2014. Klopp convocou 44 jogadores, divididos em dois grupos para a primeira e a segunda séries de jogos, a fim de testar muita gente contra Grécia, Sérvia e Holanda. Os Países Baixos, de grande tradição no futebol, também estão com técnico novo. O espanhol Xavi Hernández substitui Ronald Koeman, com o desafio de, quem sabe, trazer um pouco da alma de Rinus Michels e Johan Cruyff, que contaminaram o Barcelona com o Futebol Total, que, de certa forma, tempera o tiki-taka que consagrou Xavi, Iniesta e Messi, comandados por Pep Guardiola.
MARROCOS DESTAQUE FORA DO EIXO Por fim, não podemos deixar de olhar para os outros continentes e confederações. Na Ásia, conheceremos melhor o Japão quando encarar o Brasil em amistoso, em 14 de novembro, em Singapura, ainda sob o comando de Hajime Moriyasu. Tem cara de revanche depois daquela derrota para os japoneses antes da Copa, por 3 x 2. A Coreia do Sul está com o espanhol Robert Moreno, anunciado como técnico interino para substituir Hong Myung-bo, mas ainda segue com o capitão Son Heung-min, aos 34 anos. O argentino Mauricio Pochettino foi mantido no comando da Seleção dos Estados Unidos e fará uma ampla renovação, a começar pelo jovem meia Cavan Sullivan, de 16 anos, sensação do Philadelphia Union na MLS e na mira do Manchester City. O garoto terá muitos holofotes, até porque a estrela dos EUA, Christian Pulisic, do Milan, se recupera de lesão e foi poupado da série de amistosos pós-Copa.
Não vejo nenhuma seleção fora do eixo sul-americano e europeu em condições de brilhar na próxima Copa, exceção feita a Marrocos. Primeiro, porque o futebol africano foi encantador na última Copa. Das 10 seleções, 9 avançaram para a segunda fase. Quem não se encantou com Cabo Verde de Vozinha, que fez um jogo histórico contra a Argentina, mesmo eliminada por 3 x 2, no detalhe? Ainda teve o golaço da Copa, numa jogada coletiva espetacular, com o chute certeiro de Sidny Cabral. O Egito de Salah foi às oitavas e também caiu para a Argentina, de virada, por 3 x 2. Marrocos parou nas quartas para a França. Fez um grande jogo ao empatar com o Brasil por 1 a 1. Saiu na frente com um gol de Saibari, que trocou o PSV pelo Bayern de Munique. O jogo revelou para o mundo o volante Ayyoub Bouaddi, que trocou o Lille pelo Manchester City após a Copa.
Marrocos segue com as lideranças do lateral Hakimi, do PSG; do meia Brahim Díaz, do Real Madrid; e do experiente goleiro Yassine Bounou, do Al-Hilal. O técnico mantido no cargo principal é belga-marroquino Mohamed Ouahbi, que faz um ótimo trabalho de renovação. A seleção marroquina disputa as eliminatórias da Copa Africana de Nações contra Gabão, Lesoto e Níger. É sempre interessante ficar de olho também em Nigéria e Camarões, que ficaram de fora da última Copa. Mas Marrocos, além de ser a melhor de todas elas, será uma das sedes da próxima Copa do Mundo. E a torcida marroquina é uma das mais empolgadas do planeta. É ano da última Copa, mas o ciclo da próxima já começou, com a campeã Espanha como favorita e o Brasil ainda longe de brigar pelo título.






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