top of page

O dia em que Xavi, Klopp e Jorge Jesus estrearam

15 minutes ago
3 min read

Holanda 1 x 1 Alemanha. Foto: KNVB Media
Holanda 1 x 1 Alemanha. Foto: KNVB Media

Há concertos que juntam vozes que nunca deveriam dividir o mesmo palco, e ainda assim funcionam, porque cada uma canta na sua própria altura, no seu próprio tempo. Foi assim, mais ou menos, que o futebol organizou a estreia de Xavi, Klopp e Jorge Jesus. Três tenores, três timbres, três repertórios completamente diferentes, cantando na mesma noite de quinta feira, cada um no seu palco, cada um na sua seleção. Nenhum dos três estava ali para dividir aplauso com o vizinho. Cada um tinha seu próprio show para resolver.

Comecemos pela Johan Cruijff Arena, que recebeu o dueto mais tenso da noite. Klopp regeu a Alemanha como quem já conhece a música de cor, e a orquestra respondeu cedo: gol de Nmecha aos 32, um solo limpo, sem hesitação. Xavi, na outra ponta do palco, teve que improvisar. A Holanda insistiu, teve dois solos cortados pelo maestro invisível do VAR, essa entidade que ouve nota por nota e não perdoa um compasso fora do lugar, e esbarrou seguidas vezes em Ter Stegen, que cantou aquela noite como quem tinha uma conta pessoal a acertar com a derrota. Só nos acréscimos, quando a plateia já ensaiava a decepção, Gakpo emendou a nota que faltava. Fica registrado o conceito: o empate nos acréscimos é sempre um alívio com gosto de quase. Ele evita a derrota. Não apaga o sufoco.

Em Lisboa, a música foi outra. Jorge Jesus regeu como quem já sabia o hino de cor há décadas, e a orquestra confirmou: gol de João Félix aos 22, um solo de fora da área que soou ensaiado, embora não fosse. Cristiano Ronaldo, esse cantor que se recusa a deixar o palco mesmo depois do último ato, teve a noite mais silenciosa de que se tem notícia. Perdeu uma nota fácil, sem goleiro pela frente. Teve outra cortada pelo VAR. A plateia de Gales quase invadiu o final com a trave de Brennan Johnson, mas Portugal segurou o show até o encerramento. Fica a moral da história, que vale para tenores e para o resto de nós: existir no palco não é o mesmo que cantar bem. Às vezes basta existir.

Já em Oslo, o clássico nórdico decidiu não ser show elegante nenhum, e sim aquele tipo de apresentação com gente demais cantando ao mesmo tempo. A Noruega abriu 2 a 0 em quinze minutos, com Bobb e Haaland, um dueto afinado que parecia sentenciar o segundo tempo antes mesmo do intervalo. A Dinamarca, porém, tem lá seu próprio coro, descontou ainda no primeiro tempo com Damsgaard e empatou no segundo com Højlund. Foi quando Haaland, que trata gol como quem cobra royalties de uma música própria, decidiu lembrar a plateia de quem é o autor da melodia principal. Aos 74, fechou a apresentação com chave de ouro. Foram cinco gols e uma única certeza: contra Haaland, o empate é sempre nota de rodapé, nunca final de show.

E então, Linz. Onde o espetáculo, cansado de tanta solenidade europeia, resolveu virar comédia sem avisar ninguém. A Áustria já vencia com um pênalti de Schmid quando Israel, por Abu Farchi, subiu ao palco e empatou de cabeça logo na volta do intervalo. A festa durou pouco. Já advertido, Farchi comemorou arrancando a bandeira de escanteio do lugar e simulando um disparo em direção ao campo. Levou o segundo amarelo, e o vermelho na sequência, como quem é vaiado e retirado do palco no mesmo gesto. Nunca uma comemoração durou tão pouco entre o aplauso e a saída de campo. Com um a menos, Israel viu a orquestra austríaca fechar o espetáculo com mais dois solos nos minutos finais, 3 a 1 no placar final. Fica também aqui um pequeno tratado sobre palco e sobre futebol: a plateia perdoa a nota desafinada. Raramente perdoa o exagero de cena.

No fim, a noite confirmou o que toda temporada de estreias sempre soube e finge esquecer a cada ciclo. Trocar de regente é fácil. Trocar a sorte da orquestra, não.


Comments


Caco da Motta Comuniação Logo

MOTTA COMUNICAÇÃO

Site, Canal do Youtube do Caco da Motta são conteúdos e marcas originais do jornalista Caco da Motta e da empresa Motta Comunicação.

© Site Caco da Motta      I            Desenvolvido por Motta Comunicação

INSCREVA-SE

Receba nossas notícias e novidades!

Obrigado!

Motta Comunicação LTDA    I   CNPJ 08790747000100  I  Endereço Somente para Correspondência :  R. 24 de  Outubro, 1585/907  - Porto Alegre-RS, | CEP 90510-003

bottom of page